sexta-feira, 27 de junho de 2008

Krugman: nada irá trazer de volta os dias de petróleo barato

Paul Krugman

Colunista do The New York Times

O Congresso sempre teve uma queda por "especialistas" que dizem aos seus membros o que eles querem ouvir, sejam economistas do lado da oferta declarando que cortes de impostos aumentam a receita ou céticos em relação à mudança climática insistindo que o aquecimento global é um mito.No momento, o tapete de boas-vindas está aberto para os analistas que alegam que especuladores fora de controle são responsáveis pela gasolina a US$ 4 o galão.Em maio, Michael Masters, um administrador de fundo hedge, causou furor quando disse a um comitê do Senado que a especulação é a principal causa da alta dos preços do petróleo e outras commodities.

Ele apresentou gráficos mostrando o crescimento do mercado futuro de petróleo, no qual os investidores compram e vendem promessas de entregar petróleo em uma data posterior, e alegou que "o aumento na demanda por especuladores de índices" -seu termo para investidores institucionais que compram contratos futuros de commodities- "é quase igual ao aumento na demanda na China".Muitos economistas zombaram: Masters estava fazendo uma alegação bizarra de que apostar em um preço mais alto do petróleo -porque é isto o que significa comprar um contrato futuro- é equivalente a de fato queimar o produto.

Mas os membros do Congresso gostaram do que ouviram, e desde aquele depoimento grande parte do Capitólio adotou o discurso de culpar os especuladores.Um tanto surpreendente, os republicanos se mostraram no mínimo tão dispostos quanto os democratas em condenar os especuladores malvados. Mas a verdade é que a fé dos conservadores no livre mercado meio que evapora quando se trata de petróleo. Por exemplo, a "National Review" tem publicado artigos culpando os especuladores pelos altos preços do petróleo há anos, desde que o preço ultrapassou os US$ 50 o barril.E foi John McCain, e não Barack Obama, que disse recentemente isto: "Enquanto alguns poucos especuladores impulsivos contam seus lucros, a maioria dos americanos está na pior -usando uma fatia cada vez maior de seus salários obtidos com suor para comprar gasolina".

Por que os políticos estão tão ávidos em atribuir a culpa pelos preços do petróleo aos especuladores? Porque permite que acreditem que não precisamos nos adaptar a um mundo de gasolina cara.De fato, nesta última segunda-feira, Masters assegurou a um subcomitê da Câmara que um retorno aos dias do petróleo barato está mais ou menos ao alcance. Se o Congresso aprovasse uma legislação restringindo a especulação, ele disse, os preços da gasolina cairiam quase 50% em questão de semanas.

Ok, vamos falar sobre a realidade.A especulação está tendo um papel na alta dos preços do petróleo? Não está fora de questão. Os economistas estavam certos em zombar de Masters -a compra de contratos futuros não reduz diretamente a oferta de petróleo aos consumidores- mas sob certas circunstâncias, a especulação no mercado futuro de petróleo pode aumentar os preços indiretamente, encorajando os produtores e outros agentes a reter petróleo em vez de torná-lo disponível para uso.O que está acontecendo agora é tema de uma disputa altamente técnica. (Os leitores interessados no assunto podem ir ao meu blog, krugman.blogs.nytimes.com, e seguir os links.) Basta dizer que alguns economistas, eu incluso, damos importância ao fato de que os sinais habituais de boom especulativo de preço estarem ausentes.

Mas outros economistas argumentam que a ausência de evidência não é evidência sólida de ausência.E quanto aqueles que argumentam que a especulação excessiva é a única forma de explicar a velocidade com que os preços do petróleo aumentaram? Bem, eu tenho algo para eles: minério de ferro.O minério de ferro não é negociado em uma bolsa mundial; seu preço é estabelecido em acordos diretos entre os produtores e os consumidores. Então não há modo fácil de especular com os preços do minério de ferro. Mas o preço do minério de ferro, assim como o do petróleo, saltou ao longo do ano passado. Em particular, o preço que os produtores de aço chineses pagam para as minas australianas saltou 96%.Isto sugere que o aumento da demanda por parte das economias emergentes, e não a especulação, é a verdadeira história por trás da alta dos preços das commodities e matérias-primas, incluindo o petróleo.

De qualquer forma, uma coisa é clara: a agitação em torno da especulação no mercado do petróleo está nos distraindo das questões reais.Uma regulação mais rígida do mercado de futuros não é uma má idéia, mas não trará de volta os dias de petróleo barato. Nada irá. Os preços do petróleo flutuarão nos próximos anos -não seria uma surpresa uma pequena queda caso os consumidores passem a dirigir menos, comprem carros mais econômicos e assim por diante- mas a tendência a longo prazo certamente é de alta.

Grande parte do ajuste aos preços mais altos do petróleo virá por meio da iniciativa privada, mas o governo pode ajudar o setor privado de várias formas, colaborando com o desenvolvimento de tecnologias de energia alternativa e novos métodos de conservação, assim como ampliando a oferta de transporte público.Mas nós nem mesmo teremos o início de uma política racional de energia se continuarmos ouvindo pessoas que nos garantem que basta desejarmos que os preços altos do petróleo irão embora.

Em NYT - 27/06

terça-feira, 17 de junho de 2008

NA ÁSIA, EMPRESAS OLHAM ALÉM DA CHINA

Seria difícil de imaginar que apenas por uma demonstração de confiança no Vietnã alguém decidisse superar a iniciativa da Intel, no início de 2006, de investir US$ 350 milhões na construção de uma nova fábrica nessa economia emergente do Sudeste Asiático. Mas antes do fim do ano, a própria a fabricante americana de microprocessadores se superou, e aumentou seu investimento para US$ 1 bilhão. Em oito meses, a Intel injetou tanto dinheiro no Vietnã quanto havia investido na China nos dez anos anteriores.

Na região de Johor, na Malásia, a Flextronics, outra empresa mundial, inaugurou linhas de produção (um custo de US$ 110 milhões) para fabricar impressoras para computadores da Hewlett-Packard. Um dos maiores fabricantes de eletrônicos sob contrato, a Flextronics tem enormes instalações na China. Mas escolheu a Malásia para o novo investimento.

Mais a leste, na Indonésia, a Yue Yuen, um fabricante de sapatos com sede em Hong Kong , vem incrementando sua produção de roupas e calçados esportivos para marcas como Nike e Adidas. A produção também está aumentando nas fábricas da companhia na China e no Vietnã, mas é na Indonésia que o avanço é mais rápido.

Embora cada uma das três empresas tenha diferentes razões para suas decisões, o resultado final foi o mesmo: decidiram evitar a trovejante economia chinesa e instalar suas fábricas em outros países da Ásia. Essas companhias não estão sozinhas. No cálculo de custos, riscos, clientela e logística, um número crescente de empresas está chegando à conclusão de que a China não é, necessariamente, o melhor lugar para se produzir. Com sua aparentemente ilimitada oferta de mão-de-obra barata e rápida aquisição de extraordinária competência tecnológica, a China parece imbatível. Com efeito, a percepção é de que cada fábrica fechada nos EUA ou Europa está destinada a reabrir na China. Muitas o fizeram, contribuindo para que a participação das exportações da China, em comparação com as do mundo inteiro, triplicasse para 7,3% entre 1993 e 2005. Por outro lado, cada membro do grupo do G-7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo) viu a sua participação diminuir.
Na produção industrial, a história é similar. Enquanto a China dobrou sua participação na produção mundial para quase 7% entre 1993 e 2003, a maior parte do G-8 viu sua participação cair.

Mas não é apenas a China que se revela aquecida como base de produção barata. A indústria de transformação e as exportações estão crescendo rapidamente em outras áreas da Ásia (veja gráficos). Em conjunto, Coréia do Sul, Taiwan, Índia e a Associação dos Países do Sudeste Asiático (Asean) ampliaram sua participação na indústria de mundial de menos de 7% para mais de 9% entre 1993 e 2003. As exportações também cresceram em todos os países. A China é o gigante emergente, mas os investimentos que estão sendo desviados da China oferecem ao restante da Ásia uma enorme oportunidade para tornarem-se, eles próprios, centros de irradiação de manufatura. A questão é se esses países conseguirão aproveitá-la.
Scott Brixen, um analista da CLSA Asia-Pacific Markets, um banco de investimentos sediado em Kong Hong , sugere duas explicações para o fato de a China não estar no topo da lista como sede para algumas novas fábricas: "custos crescentes e um desejo natural de diversificação por parte das empresas".

Até agora, a maior parte do desenvolvimento industrial na China aconteceu nas regiões costeiras orientais do país, especialmente em torno de Xangai e do delta do Rio da Pérola, próximo de Hong Kong. Mas os custos nesses centros estão crescendo substancialmente. Os aluguéis de escritórios estão em alta, os terrenos para indústrias são escassos e os custos de serviços públicos estão subindo. O mais relevante é a escalada salarial. Apesar da migração em massa de trabalhadores do vasto interior chinês para a costa, a remuneração de trabalhadores empregados em fábricas vem crescendo a taxas da ordem de dois dígitos há vários anos. Para os administradores de empresas, a situação é ainda pior.

"A China tornou-se vítima de seu próprio sucesso", avalia Peter Tan, presidente e diretor-gerente da Flextronics na Ásia. Ele sente particular dificuldade em contratar e conservar pessoal técnico, de diretores financeiros a gerentes, habilitados em técnicas de produção internacional, como "seis sigmas" e "manufatura enxuta". Não há operários qualificados o bastante para suprir a demanda, resultando em cooptação desenfreada de funcionários e inflação muito rápida nos salários.

Um estudo sobre remuneração dos asiáticos feita por Scott Brixen, analista da CLSA Asia-Pacific Markets, um banco de investimentos sediado em Hong Kong , mostra que os salários médios de um operário, somado a custos de seguridade social, chegaram a quase US$ 350 mensais em Xangai em 2005 e quase US$ 250 por mês em Xenzhen. Já em Manila, os salários mensais eram inferiores a US$ 200, de cerca de US$ 150 em Bancoc e pouco mais de US$ 100 em Batam, na Indonésia. Embora a produtividade dos trabalhadores chineses esteja crescendo, em muitos setores ela não acompanha o ritmo dos salários.

Uma solução, para as companhias, é transferir-se para o interior, onde muitos custos são muito inferiores que os da costa da China. De fato, o governo vem estimulando essa política desde 2000 para disseminar os benefícios do desenvolvimento no pobre interior da China. As companhias nacionais chinesas lideraram a migração para o interior, e um pequeno, mas crescente, número de empresas estrangeiras as seguiram.

A Intel é uma delas. Em 2004, a companhia decidiu investir US$ 525 milhões em uma nova fábrica em Chengdu, capital da província de Sichuan, para complementar suas fábricas existentes na costa em Xangai, a 1,6 mil km de distância. A empresa foi atraída por generosos incentivos concedidos pelo governo, segundo Brian Krzanich, diretor geral das operações de teste e montagem da Intel. É desnecessário dizer que, estando tão longe, no interior, sobem os custos de transporte para os exportadores. Mas Krzanich avalia haver compensações. A mão-de-obra e os serviços públicos são muito mais baratos do que no litoral.

Nem todo mundo, porém, está convencido disso. Na Flextronics, as fábricas de Tan na China estão todas localizadas em províncias costeiras orientais. "Não temos interesse em ir para o oeste", diz ele, porque é muito caro levar nossos produtos de lá para os EUA e a Europa. Outros observadores acrescentam que a escassez de talento gerencial no interior é ainda maior do que no litoral.

Os custos são apenas parte da equação. Igualmente importante é a diversificação. Tendo já transferido grande parte de sua produção para a China, muitas empresas estão relutantes em colocar mais ovos num mesmo cesto. Um relatório de pesquisa redigido no ano passado pela Organização de Comércio Exterior do Japão concluiu: "devido aos crescentes riscos para os negócios e o crescimento dos custos de mão-de-obra no país... as empresas japonesas que estão praticando uma estratégia 'China mais um'- pela qual elas investem na China e em um outro país (na Asean) - deveriam considerar dar maior ênfase ao país 'mais um'".

As companhias japonesas podem estar particularmente receosas, mas esse nervosismo é agora compartilhado por gerentes de outros países. Algumas das empresas estão preocupadas com a crescente agitação social na China, à medida que aumenta a desigualdade entre faixas da população rural do país, especialmente no oeste, e o leste, sede do maior progresso. Estatísticas oficiais registraram 87 mil manifestações nas ruas e turbulência social em 2005, muitas delas após a apropriação à força de terras em nome do desenvolvimento. O número real de protestos pode ser muito maior. Igualmente importantes são as preocupações quanto ao crescente protecionismo. OS EUA e a União Européia (UE) estão revelando-se mais assertivos ao cobrar da China o cumprimento de seus compromissos assumidos junto à Organização Mundial de Comércio (OMC). As companhias temem que isso possa resultar em súbitas interrupções do comércio.

Consideremos a Yue Yuen, maior fabricante mundial de sapatos sob contrato. São 180 milhões de calçados produzidos por ano na China, Vietnã e Indonésia, a maior parte destinada aos EUA e Europa. Assim, quando a UE impôs tarifas antidumping, em outubro de 2006, sobre calçados de couro importados da China e do Vietnã, a empresa rapidamente incrementou sua produção na Indonésia. "As relações comerciais com outros países e o cenário de tarifas e quotas são considerações vitais para definir onde investimos", diz Terry Ip, porta-voz da companhia.
As mesmas considerações aplicam-se aos níveis salariais. Cada calçado passa por 200 pares de mãos na linha de produção, e portanto, as operações da Yue Yuen são fortemente intensivas em mão-de-obra. Na China, a companhia está submetida a uma rápida inflação de salários, embora isso seja parcialmente compensado por melhorias de produtividade, implicando que o custo total unitário de mão-de-obra está crescendo 8% ao ano. A remuneração de operários em fábricas está crescendo também no Vietnã e na Indonésia, observa Ip, mas lá os custos são até 35% inferiores aos típicos na região costeira chinesa.

A China é sinônimo também de outros riscos, especialmente pela ausência de proteção a direitos de propriedade intelectual. São inúmeras as histórias de investidores estrangeiros que descobrem empresas locais produzindo artigos idênticos aos seus, mas sob uma marca diferente. Por essa razão, algumas companhias em setores como o de aparelhos médicos, em vez de estabelecerem-se na China, foram para Cingapura.

Freqüentemente esses produtos são intensivos em capital, de modo que os custos trabalhistas são menos importantes do que severas leis de propriedade intelectual. Diversas companhias químicas chegaram a construir instalações em Cingapura com a intenção de exportar a maior parte de seus produtos para a China. Insumos são mais facilmente disponíveis em Cingapura, mas igualmente importante é a confiança em que processos industriais não serão roubados.
Os administradores de empresas também se preocupam com a valorização da moeda chinesa. Embora ninguém espere saltos bruscos, o yuan parece, efetivamente, estar em trajetória firmemente ascendente, tendo subido outros 4% frente ao dólar desde que o governo pela primeira vez valorizou a moeda em 2,1% em julho de 2005. Os experts acreditam que o yuan continuará a subir, em torno de 5%, nos próximos 12 meses, o que em nada contribuirá para fortalecer a atratividade chinesa como base industrial exportadora. Evidentemente, custo e risco não são as únicas considerações ao decidir onde instalar uma fábrica. A qualidade da infra-estrutura de um país, a presença de fornecedores e o tamanho do mercado local - tudo conta. Por essas razões, a China continuará sendo um lugar atraente para investir.

Kumar Bhattacharyya, professor de processos de manufatura na Universidade de Warwick, Reino Unido, acredita que o atrativo do crescente mercado interno chinês preponderará sobre as diversas preocupações quanto a custos. "Por que as empresas vão para a Índia e China? A resposta padrão é: em busca de mão-de-obra barata; mas a maioria das grandes empresas de tecnologia vão para lá pelo mercado", diz.

Setores como o de têxteis e artigos do vestuário sempre buscarão lugares com mão-de-obra barata, pulando de país em país, à medida que os salários sobem. Mas no caso de atividades industriais complexas e intensivas em capital, os afluxos de investimento estrangeiro direto visam a um acesso a mercados locais, e não a baixos custos.

Na Ásia emergente, simplesmente não há mercados maiores do que a China, com seu 1,3 bilhão de pessoas. A riqueza das pessoas ainda é extremamente baixa, em comparação com os EUA e a Europa, mas nas grandes cidades está surgindo uma classe média vibrante. Com taxas de crescimento superiores a 10% ao ano, a China oferece um enorme potencial. Meios de transporte e outras infra-estruturas, na China, estão também em melhor forma do que em muitos outros países asiáticos, e a qualidade e disponibilidade de fornecedores está melhorando, viabilizando o desenvolvimento de cadeias de suprimento extremamente integradas no país.

Mas outras regiões da Ásia também oferecem mercados consideráveis. A Índia tem 1,1 bilhão de pessoas, uma classe média emergente e deverá crescer cerca de 8% neste ano, embora o país seja bem mais pobre do que a China. Até hoje, o investimento estrangeiro na indústria de transformação tem sido limitado - o afluxo total de investimentos em 2005 foi de minguados US$ 7 bilhões, em comparação com mais de US$ 70 bilhões para a China (ver tabelas). Infra-estrutura inadequada é um dos principais obstáculos na Índia, bem como sua burocracia. Porém mesmo lá, mais companhias estrangeiras estão começando a abrir fábricas.

O setor de autopeças é um bom exemplo: a Toyota e a Hyundai investiram recentemente na Índia para aproveitar os quase 700 mil engenheiros e diplomados em ciências que o país forma por ano.

A maioria dos observadores estima que a evolução industrial indiana está dez anos atrasada em relação à China, mas é improvável que o estreitamento da defasagem seja tão rápido ou harmonioso. País que atribui um valor mais alto que a China à democracia e aos direitos dos indivíduos, a Índia terá, inevitavelmente, maior dificuldade para pôr em prática projetos de infra-estrutura e reformas em áreas delicadas, por exemplo, no rígido mercado de trabalho.
Com 560 milhões de pessoas, o bloco comercial da Asean também tem uma grande população. O Sudeste Asiático tem sido o principal beneficiário da decisão das companhias de diversificar fora da China. O problema é que os dez países da Asean ainda não constituíram um mercado comum. Embora a região ofereça muitas oportunidades para indústrias exportadoras, como mercado comum ele continua extremamente fragmentado. Os governos da região anunciaram planos ousados de criação da Comunidade Econômica da Asean até 2015, com fluxo livre de mercadorias, serviços e investimentos. Depois da assinatura de um acordo de livre comércio em 1992, as tarifas sobre a maioria dos bens comercializados na região caíram para menos de 5%
Muito mais difícil será implementar a eliminação de barreiras não tarifárias.

Poucos acreditam que a Comunidade Econômica da Asean será criada como esperam seus arquitetos. Países menos desenvolvidos, como Mianmar e o Laos, deverão integrar-se mais lentamente do que países como Cingapura e Malásia - se chegarem a se integrar. Mesmo assim há progressos, e a rápida ascensão da China e da Índia impõe urgência ao processo. Enquanto isso, os governos precisam também pensar em como levar seus setores de atividade industrial a agregar mais valor. Embora a Asean venha recebendo níveis recordes de investimento estrangeiro direto - US$ 37 bilhões em 2005 - grande parte da atividade industrial vindo para a região é de trabalho básico de montagem, intensivo em mão-de-obra, que agrega apenas pouco valor.

Para Roland Villinger, um sócio na firma de consultoria McKinsey em Bancoc, a região necessita incrementar a sofisticação de sua indústria de transformação. Ele concorda em que muitas fábricas na Asean fazem parte de uma estratégia "China mais um ou mais dois". Mas acredita que o Sudeste Asiático precisa ser mais do que apenas uma proteção contra riscos na China. E a Asean tem sua própria parcela de riscos. O novo governo militar da Tailândia parece estar fazendo tudo o que pode para desencorajar investimentos, por exemplo, impondo maiores restrições ao capital estrangeiro e controles monetários.

Mas há boas notícias. Cingapura tem uma força de trabalho com ótima formação acadêmica, embora sua população seja de apenas cerca de 4 milhões de habitantes. A Malásia teve algum sucesso na implantação de processos industriais de maior valor agregado. Em maio, por exemplo, a Intel inaugurou um novo centro de pesquisas em Kulim, empregando 900 pessoas. E na Tailândia, os esforços para transformar o país na "Detroit Oriental" estão começando a render dividendos.

Outros países na região, porém, ainda não fizeram suficiente progresso. Enquanto os investidores estrangeiros se afogam nos números de investimentos na China e buscam outros países, esse imobilismo não tem grande importância. Mas à medida que a Índia for resolvendo seus problemas e que o mercado chinês for crescendo mais, o Sudeste Asiático precisará integrar seus próprios mercados ou verá pouco a pouco dissipar-se sua nova popularidade entre as empresas industriais.

domingo, 15 de junho de 2008

INTERNACIONALIZAÇÃO DA GESTÃO BRASILEIRA

EQUIPE BRASILEIRA MANTÉM CONTROLE DE GIGANTE DA CERVEJA

A InBev orgulhosamente traça sua tradição até 1366, no que é hoje a Bélgica. Mas apesar de a cervejaria manter sua sede lá, a direção liderada por brasileiros é quem dá as cartas.

Esta inclui Carlos Brito, seu executivo-chefe. Ele assumiu a função em 2005, um ano depois que a InBev foi criada por uma fusão da Interbrew da Bélgica com a AmBev, o maior grupo cervejeiro da América Latina.Brito é central na oferta não-solicitada de US$ 46,3 bilhões pela Anheuser-Busch dos EUA, potencialmente um negócio transformador que daria à InBev cerca de um quarto do mercado mundial de cerveja. Brito entrou para a AmBev, sediada no Brasil, há quase 20 anos e subiu até o topo antes de passar para a InBev, para liderar as operações da empresa na América do Norte. O esforçado executivo de 48 anos projeta uma imagem informal: é conhecido apenas como "Brito". Mas isso esconde seu esforço para espremer os custos e aumentar a eficiência.

A InBev foi forjada por meio de uma série de aquisições no mundo todo, produzindo bilhões de euros em economias de custos. Brito, que tem um MBA de Stanford, revelou em um discurso na universidade americana este ano que os benefícios são raros na InBev, embora haja um sistema de compensações agressivo. "Dizemos que quanto mais enxuta a empresa mais dinheiro teremos para dividir no fim do ano", ele disse. "Eu não tenho escritório. Divido minha mesa com meus vice-presidentes. Sento-me com meu homem de marketing à esquerda, o de vendas à direita, o das finanças em frente."O principal oficial financeiro de Brito é Felipe Dutra, um brasileiro de 42 anos.
Sentados acima deles no conselho da InBev estão Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles, Roberto Thomson Motta e Carlos Sicupira, que foram trazidos pela GP Investimentos, uma companhia de sucesso que conseguiu participação em muitos grupos brasileiros.Os membros do conselho "são muito objetivos, simples e diretos em sua abordagem", diz um antigo executivo da AmBev. "Eles definem objetivos e não os modificam muito.




Mesmo que uma operação tenha alto custo, sua prioridade é ter o controle do que eles operam e hegemonia em qualquer mercado em que operem."Brito rejeitou a sugestão de que ele e seus colegas dominariam uma nova combinação InBev-Anheuser, dizendo que ela utilizará executivos talentosos de ambos os lados. Mas o histórico dos brasileiros sugere que é improvável que entrem em qualquer empreendimento no qual não detenham o controle operacional.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O REAL VALOR DAS MARCAS

Sugestão de blog muito bem bolado: http://www.brandtags.net/

Mostra, randomicamente, logotipos de empresas conhecidas e convida o internauta e escrever a primeira palavra ou frase que lhe vem à mente quando vê o tal símbolo.

Além disso, permite que o internauta veja os votos de outros usuários -- e, com isso torna-se uma incrível ferramenta para os marqueteiros de plantão "mediram" a imagem de suas marcas.


OBAMA ASSEGURA CANDIDATURA DEMOCRATA


Pré-candidato da oposição não deve representar grandes mudanças ao comércio com o Brasil, dizem especialistas

Após uma disputa de meses com a senadora americana Hillary Clinton, o também senador Barack Obama conseguiu nas últimas horas reunir o apoio de que precisava para tornar-se o candidato do Partido Democrata à Presidência da República dos Estados Unidos. Com o apoio declarado da maioria dos superdelegados, os membros do partido que definem quem encabeçará a chapa, Obama tem o apoio necessário dentro de seu partido para tornar-se o primeiro negro a concorrer ao cargo à frente de um dos dois grandes grupos políticos. Apesar da dianteira de Obama, sua adversária ainda não admitiu a derrota.

Caso vença a disputa contra o republicano John McCain, o candidato do presidente George W. Bush, Obama também entrará para a história como o primeiro filho de um imigrante (seu pai era queniano) a dirigir o país. O pioneirismo que marca a biografia do candidato, porém, dificilmente aparecerá na política de comércio dos americanos com outros países, na opinião de analistas ouvidos pelo Portal EXAME.

Eles apontam que apesar do discurso incisivo em favor do multilateralismo e da reconquista de confiança internacional na liderança americana, Obama não terá forças para se tornar o primeiro presidente em muitos anos a interferir em questões essenciais para uma parte significativa das empresas brasileiras, como a derrubada de barreiras tarifárias aos produtos agrícolas e o fim dos subsídios a produtores de commodities.

"Se eu fosse um homem de negócios no Brasil, eu não esperaria grandes mudanças. É possível que haja um esforço maior para a cooperação internacional, e o discurso dele vai claramente nesse sentido, mas eu ficaria mais atento ao que ele faz do que ao que ele fala", diz o professor Robert Lawrence, titular da cadeira de Práticas de Política Externa da Escola de Governo John F. Kennedy, ligada à Universidade Harvard.

Lawrence afirma que o futuro presidente dos Estados Unidos, independentemente de quem seja, enfrentará o desafio de equilibrar as pressões de dois focos distintos. De um lado, há a demanda crescente da comunidade internacional por mais abertura econômica, fortalecida pela própria visão de política externa do partido Democrata, segundo a qual os Estados Unidos precisam redefinir seu papel no mundo com base em mais diálogo e autoridade moral. No outro sentido, a crise financeira que desacelera o país alimenta a demanda de uma parcela cada vez maior da população por protecionismo e restrições à saída de capital. O professor lembra que numa pesquisa recente conduzida por uma revista, 60% dos americanos disseram considerar o livre comércio como prejudicial aos Estados Unidos – e a novidade é que dessa vez a insatisfação cresce entre os eleitores mais ricos e escolarizados, tradicionalmente favoráveis à derrubada de barreiras.

"É difícil saber qual das tendências vai predominar, mas mesmo que Obama negocie mudanças, elas precisarão ser aprovadas pelo Congresso, onde a resistência é muito maior. Os brasileiros deveriam se preocupar mais com os parlamentares, comprometidos com os eleitores, do que com o presidente, que precisa pensar mais nas conseqüências externas do que se decide no país", opina Lawrence.

O cenário propício ao que o analista de Harvard chama de "forma americana de populismo" também é o mais provável na opinião do professor de Política e Ética da Universidade de Campinas, Roberto Romano. Ele acredita que o lobby por protecionismo terá um campo fértil no governo do democrata, uma vez que a própria linha política do candidato não parece tão definida quanto a dos demais.

"Obama terá a oportunidade de transformar a política interna dos Estados Unidos, mas se ele vai fazer ou não ninguém sabe", ele diz.

Etanol em segundo plano

Além da necessidade de conquistar a simpatia de eleitores e empresários, o próximo presidente americano chegará ao cargo num cenário bastante desfavorável a mudanças que num primeiro momento tragam prejuízos à balança comercial do país, segundo os especialistas. Os Estados Unidos de hoje começam a sofrer tanto com a recessão quanto com a inflação e registram grandes déficits em conta corrente, que os obrigam a tomar empréstimos de países superavitários, como a China e os exportadores de petróleo do Oriente Médio. Também pesa a escalada de preço do óleo cru para acima de 130 dólares por barril, que amplia o desequilíbrio entre gastos e ganhos no comércio.

Em meio à crise, mesmo questões como aquecimento global e busca de fontes alternativas de energia, que poderiam favorecer uma iniciativa de abertura ao etanol brasileiro, tendem a ficar em segundo plano, quando entra o jogo o temor dos americanos de perderem seus empregos.
"Não se trata da relação dos Estados Unidos com o Brasil, mas o contrário. O Brasil é que quer que o etanol esteja na pauta das exportações, e não o contrário", aponta o ex-embaixador do Brasil em Washington e atual presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp, Rubens Barbosa.

O professor de Harvard Robert Lawrence reforça a improbabilidade de o etanol entrar na pauta americana de importações. "Se a preocupação principal dos americanos de fato fosse com o aquecimento global ou a escassez de alimentos, já estariam importando etanol do Brasil, mas continuam com o etanol de milho", diz.

A definição do presidente americano deve ocorrer apenas em novembro e o candidato assumirá o cargo em janeiro de 2009.

Em Exame, por Ana Greghi e Peri de Castro