sábado, 28 de fevereiro de 2009

O CARRO: PANE DE LIBÍDO?

São milhares de carcaças novas que, por toda a Europa e Estados Unidos, formam filas nos pátios, sob galpões, e esperam em vão por um comprador. Em nada lembram os clássicos cemitérios de carros, com seus montes de latarias amassadas, de chassis danificados apodrecendo em um terreno baldio, como o mítico Cadillac Ranch na Route 66 nos Estados Unidos, monolitos de metal pintados de forma grotesca, enfiados na areia do deserto californiano. Estes testemunhavam a vitalidade de uma indústria que largava atrás de si seus dejetos.

Os cemitérios de hoje vivem uma pane do sistema. A crise acelera uma aversão crescente pelo automóvel. Os glutões 4 x 4 são denunciados nos Estados Unidos pelos grupos evangélicos que veem neles símbolos de uma arrogância contrária aos ensinamentos de Cristo! Em toda parte os grandes fabricantes fecham usinas, reduzem a produção, declaram falência, demitem a torto e a direito. Fim de um objeto de fetiche que foi herói do século XX e criou em sua esteira tantas obras-primas, pequenas maravilhas da mecânica.

As mudanças na demografia anulam o direito à mobilidade. Tão maravilhoso quanto reservado a uma minoria, o carro, uma vez popularizado, se transforma em pesadelo, tornando cada motorista em prisioneiro de seu veículo, além de ser dispendioso. Fim da rapidez, da generalização do engarrafamento, do acidente como mostram tantas obras literárias ou cinematográficas.

Alienação e inércia
O escritor Roberto Calasso bem disse: "A democracia é o acesso de todos a bens que não existem mais". Acrescente a esse descrédito o encarecimento dos custos do petróleo e sobretudo a acusação feita pelo discurso ecológico sobre essa indústria, poluente e incômoda. Antes símbolo de liberdade, o carro se tornou símbolo de alienação e inércia. A máquina que devorava o espaço se afundou em uma coagulação generalizada. O maravilhoso automóvel se transformou em banheira, lixeira barulhenta da qual fugimos horrorizados.

Não se trata de um simples regime ou dieta provisória antes de retomar a orgia: é realmente a conclusão de um ciclo. Claro, sempre se fabricarão carros, mas limpos, elétricos, pequenos, que não emitam nenhum gás carbônico, e recarregáveis na tomada.

A Califórnia comercializa há alguns anos o Tesla Roadster, um conversível limpo, escolhido pelos astros, e o prefeito Bertrand Delanoë logo lançará em Paris um sistema Autolib' nos mesmos moldes do Vélib': pequenos veículos elétricos que podem ser alugados por hora ou por dia. Seremos todos "ecocidadãos responsáveis", pegaremos o ônibus, o bonde, o metrô, pararemos de financiar, por meio de nossa gana por petróleo, as ditaduras sanguinárias ou os regimes opressores.

Mas como é um carro que não é nem chamativo, nem poluente, nem barulhento? Um meio de transporte, não um objeto de desejo. A ecologia tem razão, e é por isso que ela nunca suscitará o entusiasmo, uma vez que suas palavras de ordem são economia, privação e precaução. Fim da ostentação dos carrões que esmagavam com seu luxo a multidão de pedestres; fim das façanhas dos amantes de velocidade que brincavam de acelerações vertiginosas e flertavam com a morte a cada curva.

As acusações de Ivan Ilitch, André Gorz ou René Dumont em nada o afetaram. Foi preciso uma deserção global para que o sonho automobilístico perdesse seu encanto e que as vendas despencassem. Mas nunca se mata uma paixão sem antes substituí-la por outra. Nossas reluzentes máquinas já são substituídas pelos laptops, os computadores que respondem ao duplo princípio de independência e locomoção: estamos em todos os lugares sem sair de casa, ligados a todos sem estar com ninguém. No lugar dos monstros consumidores de energia, telas ultraplanas de funções múltiplas, em uma ferramenta de algumas centenas de gramas. É um novo paradigma que mexe com o indivíduo contemporâneo em uma era inédita de autossuficiência e mobilidade.

Não é o mercado que agoniza, é uma forma ultrapassada de capitalismo que desaparece porque deixou de ser desejável.

Em LM, 28/02

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Petrobras busca opções de financiamento no exterior

A Petrobras, a companhia petrolífera estatal brasileira, está mantendo conversações diretas com outros governos, incluindo Washington e Pequim, em busca de ajuda para um projeto de US$ 174 bilhões para a exploração das suas grandes reservas de petróleo.

O grupo descobriu recentemente as maiores reservas de petróleo na América Latina nos últimos 30 anos, e os líderes do setor, como Tony Hayward, diretor-executivo da BP, acreditam que as águas da costa do sudeste brasileiro contenham reservas tão grandes e importantes quanto aquelas descobertas no Mar do Norte na década de 1970.

José Sérgio Gabrielli de Azevedo, presidente e diretor-executivo da Petrobras, disse ao "Financial Times" que a Petrobras conseguiu quase todo o financiamento para este ano e que nos próximos cinco anos poderia financiar US$ 120 bilhões a partir do seu próprio fluxo de caixa.

Mas isto ainda deixa a companhia com um grande rombo financeiro que ela precisa tapar para que possa alcançar a sua meta de aumento da atual produção de petróleo e gás de 2,2 milhões de barris diários para 3,3 milhões em 2013 e 5,7 milhões em 2020.

"Será difícil, será um desafio, mas não é impossível", disse ele, acrescentando: "Mantivemos diversas conversações não só com a China e os Estados Unidos, mas com vários países. Acreditamos que isso será uma importante fonte de financiamento para nós".

Acredita-se que os Emirados Árabes Unidos também tenham manifestado interesse.

Gabrielli disse que, nos Estados Unidos, a Petrobras manteve contato com o Export-Import Bank e a Overseas Private Investment Corporation, que, segundo ele, desejam aumentar a presença de companhias norte-americanas no Brasil. Mas ele afirmou que as suas conversações em Washington foram prejudicadas pelo fato de não haver uma instituição central.

Segundo Gabrielli, em troca de auxílio financeiro para o projeto, a Petrobras garantiria o futuro fornecimento de petróleo e produtos petrolíferos.

"Em relação aos Estados Unidos, nós somos atualmente um exportador líquido de produtos petrolíferos. E isto aumentará", disse Gabrielli.

Analistas e executivos de outras companhias de petróleo concordam que a obtenção de financiamento será um dos dois maiores obstáculos enfrentados pela Petrobras, levando-se em conta a crise de crédito e a queda de mais de US$ 100 no preço do barril de petróleo em seis meses. O segundo obstáculo deverá ser o desafio técnico para a extração de petróleo acumulado sob grossas camadas de sal, bem abaixo da superfície do mar.

Um executivo de uma companhia petrolífera concorrente, que opera na América Latina e no Mar do Norte, afirma: "Eles descobriram um Mar do Norte. Demorou mais de uma década para que 15 grandes companhias conseguissem explorar aquelas reservas".

Mas Gabrielli disse acreditar que as companhias que não ajudaram a descobrir os campos de pré-sal ficarão de fora do projeto.

"O sistema regulatório do Brasil recompensa as companhias que assumem riscos de prospecção". Ele observou que entre estas companhias encontram-se a BG, do Reino Unido; a Galp, de Portugal; a Repsol, da Espanha; a ExxonMobil e a Amerada Hess, dos Estados Unidos; e a anglo-holandesa Royal Dutch Shell. "Quem não assumiu riscos não será recompensado", afirmou o presidente da companhia.

Ao apresentar na semana passada o seu plano de negócios para o período 2009-2013, a Petrobras insistiu que dará seguimento não só aos seus planos de exploração das suas reservas recém-descobertas, mas também àqueles para a construção das primeiras novas refinarias em quase 30 anos. Gabrielli afirmou que a Petrobras é a única grande companhia petrolífera que conta com novos campos de grande dimensão a serem explorados e um substancial mercado doméstico.

Mas os planos da empresa envolvem também a expansão das exportações de produtos refinados com valor agregado, em vez de petróleo cru. "Para nos beneficiarmos das nossas vantagens, precisamos construir capacidade agora", disse Gabrielli. "Se não construirmos agora, perderemos a nossa chance".

Almir Barbosa, diretor-financeiro da empresa, disse que a Petrobras ainda precisa obter cerca de US$ 8 bilhões para alcançar a meta de investimento de US$ 28 bilhões neste ano e de US$ 35 bilhões em 2010. Ele afirmou que a companhia está esforçando-se para reduzir as suas necessidades financeiras por meio de um programa de corte de despesas, que envolve a renegociação de todos os projetos, especialmente aqueles que ainda estão em estágios iniciais.

Em FT, Fev/2009