quarta-feira, 30 de abril de 2008

A CRISE DOS ALIMENTOS É UMA CHANCE DE REFORMAR A AGRICULTURA GLOBAL

Das duas crises que perturbam a economia mundial -o desarranjo financeiro e a alta dos preços dos alimentos- esta última é mais perturbadora. Em muitos países em desenvolvimento, a quarta parte mais pobre dos consumidores gasta próximo de três quartos de sua renda em alimentos. Inevitavelmente, os preços altos ameaçam agitação na melhor das hipóteses e fome em massa na pior.

As recentes altas de preços se aplicam quase que exclusivamente a alimentos básicos e rações animais. Mas estes saltos fazem parte de uma variedade mais ampla de commodities cujos preços estão em alta. Forças poderosas estão ligando os preços da energia, matérias-primas industriais e alimentos. Estas forças incluem o rápido crescimento do mundo emergente, problemas na oferta mundial de energia, a desvalorização do dólar americano e pressões inflacionárias globais.

Mas o elemento alimentar desta história possui uma relevância própria. Como o HSBC apontou em uma recente análise ("Food Fight", 15 de abril), com a alta dos preços do arroz e do trigo, tumultos nas ruas das Filipinas, Egito e Haiti e a decisão da Índia, Vietnã, Camboja e China de restringir a exportação de arroz, o alimento repentinamente se tornou um assunto mais quente do que o normal.Então por que os preços dos alimentos subiram tão fortemente? Estes preços altos durarão? Que ação deve ser adotada em resposta?

No lado da demanda, o forte aumento da renda per capita na China, Índia e outros países emergentes aumentou a demanda por comida, principalmente carne e as rações animais relacionadas. Esta mudança no uso das terras reduziu a oferta de cereais disponíveis para consumo humano.Além disso, o aumento da produção de biocombustíveis subsidiados, estimulada ainda mais pelo aumento dos preços do petróleo, aumenta a demanda por milho, óleo de canola e outros grãos e óleos comestíveis que poderiam ser voltados para a alimentação.

O mais recente Panorama Econômico Mundial do Fundo Monetário Internacional comenta que "apesar dos biocombustíveis ainda representarem apenas 1,5% da oferta global de combustíveis líquidos, eles foram responsáveis por quase metade do aumento do consumo de grandes produtos agrícolas em 2006 e 2007, em grande parte devido ao etanol de milho produzido nos Estados Unidos".Enquanto isso, a produção agregada de milho, arroz e soja estagnou em 2006 e 2007. Isto foi em parte resultado da seca. Mas também são importantes os preços mais altos do petróleo, já que a agricultura moderna é intensiva em energia.

Com o fraco crescimento da oferta e fortes aumentos na demanda, os estoques de cereais caíram aos níveis mais baixos desde o início dos anos 80. O declínio dos estoques mina a crença amplamente compartilhada de que a especulação provocou a alta dos preços, já que os estoques estariam crescendo, não caindo, se os preços estivessem acima dos níveis de liquidação.Muito mais preocupante do que a especulação é o fraco crescimento a médio prazo da oferta. O rápido aumento da produtividade dos anos 70 e 80, na época da "revolução verde", desacelerou.

Dado o estresse na oferta de água, a perspectiva a longo prazo para a oferta parece ruim mesmo se o desvio da terra para produção de biocombustíveis não contribuísse para a pressão.Os preços permanecerão altos? Duas forças opostas estão em ação.

A primeira é o mercado, que tenderá a reduzir os preços assim que a oferta aumentar e a demanda encolher. Mas também queremos evitar o segundo, pelo menos no caso dos pobres, já que a redução do consumo é mais um fracasso do que uma solução.

A segunda força é a atual pressão intensa sobre o sistema alimentar mundial. Isto vale tanto para a demanda quanto para os custos da oferta. Os preços provavelmente permanecerão relativamente altos, segundo padrões históricos, a menos (ou até) que os preços da energia caiam.Isto nos leva à grande pergunta: o que deve ser feito? As respostas caem em três categorias amplas: humanitária; comércio e outras políticas de intervenção; e produtividade e produção a longo prazo.

O ponto importante do primeiro é que os preços mais altos dos alimentos têm poderosos efeitos na distribuição: eles mais prejudicam aqueles que são mais pobres. Isto vale tanto para países quanto dentro deles. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação, em Roma, listou recentemente 37 países em necessidade substancial de alimentos. Além disso, segundo o Banco Mundial, a alta dos preços dos alimentos ameaça deixar pelo menos mais 100 milhões de pessoas com fome.Aumentos na ajuda aos vulneráveis, seja na forma de alimentos ou dinheiro, são vitais. Mas igualmente importante é assegurar que o aumento na oferta chegue àqueles em maior dificuldade.

As opções dependem da sofisticação do maquinário burocrático de um país. Mas eles incluem trabalho pago diretamente com alimento (que é uma boa forma de separar aqueles em melhor situação), uma oferta racionada de alimento barato para os pobres ou vouchers de dinheiro. Os mais necessitados serão os sem-terra, tanto rurais quanto urbanos, e as agricultores de subsistência.

Agora vamos nos voltar para as políticas de intervenção. Proteção, subsídios e outras tolices distorcem a agricultura mais do que qualquer outro setor. Infelizmente, a oportunidade para eliminar a proteção contra as importações oferecida pelos preços mundiais excepcionalmente altos não está sendo aproveitada. Em vez disso, vários países estão impondo medidas contra a exportação, fragmentando ainda mais o mercado mundial, reduzindo incentivos para maior produtividade e penalizando os países pobres importadores líquidos. Enquanto isso, os países ricos estão encorajando, até mesmo forçando, seus agricultores a produzirem combustível em vez de alimento.

A atual crise é uma oportunidade de ouro para eliminar esta abundância de intervenções danosas. O foco político na rodada de Doha em torno da redução dos níveis de protecionismo é altamente irrelevante. O foco deveria ser pela adoção de uma mentalidade de mercado pelo setor agrícola, amortecendo ao mesmo tempo o impacto dos altos preços para os pobres.Finalmente, recursos bem maiores precisam ser dedicados à expansão da oferta a longo prazo. O aumento dos gastos em pesquisa será essencial, especialmente em condições de cultivo em terra seca.

A opção por alimentos geneticamente modificados nos países em desenvolvimento é tão inevitável quanto a dos países de alta renda pela energia nuclear. Igualmente importante será o uso eficiente da água, por meio do preço e investimento adicional. As pessoas se oporão a algumas destas políticas. Mas fome em massa não é uma opção tolerável.

A crise dos alimentos e combustíveis de 2008 é um grito por nossa atenção. Ninguém sabe por quanto tempo estes choques durarão. Mas eles exigem rápidas mudanças de política por todo o mundo. Nós devemos optar entre uma maior fragmentação dos mercados mundiais ou pela integração, entre ajudar os pobres ou deixar que um número ainda maior deles passe fome e entre investir na melhoria da oferta ou permitir que a deficiência na área de alimentos aumente. As decisões certas são evidentes. A hora de tomá-las é agora.

Por: Martin Wolf - Colunista do Financial Times

Tradução: George El Khouri Andolfato

NEONACIONALISMO AMEAÇA A GLOBALIZAÇÃO


O mundo não é mais tão plano como antigamente. Na longa marcha para a globalização, fronteiras internacionais e barreiras comerciais vieram abaixo. O comunismo caiu. Muros protecionistas na América Latina e em outros lugares foram desmontados. Governos - que estavam sempre prontos a intervir no comércio - recuaram para dar a dianteira a forças de mercado mais amplas.


Num manifesto sobre a globalização, Thomas Friedman, colunista do "The New York Times", declarou que a internet e outras tecnologias de alcance mundial estavam apagando limites nacionais. O mundo, disse ele num best-seller de 2005, estava plano.


Não é mais assim. A economia mundial parece estar entrando numa época em que os governos reafirmam seu papel na vida das pessoas e das empresas. As barreiras estão sendo levantadas outra vez. Chamem isso de novo nacionalismo.


"A era da globalização fácil certamente está acabada", diz o especialista em petróleo e Prêmio Nobel de Literatura de não-ficção Daniel Yergin, cujo livro "The Commanding Heights", de 1998, detalha o triunfo dos mercados sobre as nações, a começar pela desregulamentação britânica no governo de Margaret Thatcher. "O poder do Estado está se reafirmando."


Há apenas dez anos, Ásia, América Latina e Rússia sobreviviam à base de empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. A União Européia estava escrevendo uma constituição para transferir o poder dos países membros para Bruxelas.


Agora, quem pedia emprestado esnoba o FMI e o Banco Mundial. Negociações de acordos comerciais estão engavetadas. Obstáculos para investimento estrangeiro surgem em todo o mundo. Estatais estão se expandindo, principalmente no setor de petróleo e gás. Restrições à imigração ganham cada vez mais apoio da opinião pública em países dos Estados Unidos à Índia.
A influência crescente dos governos pode ser vista em gigantescos veículos de investimento de fundos governamentais, vários deles respaldados por países que cambaleavam financeiramente dez anos atrás.


Fundos soberanos da Ásia ao Oriente Médio agora sustentam instituições financeiras estremecidas nos EUA e na Europa, e em breve podem sair à caça de pechinchas imobiliárias. O aumento do poder de Estado também pode dificultar ainda mais a questão climática mundial -de todas, a mais sem-fronteiras.


O que explica esse papel maior dos governos? Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 fizeram o mundo se concentrar em questões de segurança que só podem ser tratadas por governos nacionais. Países enriquecidos pelo boom de commodities cada vez mais reafirmam seu poder, com a Venezuela nacionalizando os campos de petróleo e a Rússia ameaçando cortar o fornecimento de gás natural para a Europa Ocidental. Um contragolpe na integração econômica também pressiona os governos nacionais a se afastarem do multilateralismo: em dezembro, a maior parte das pessoas em 21 dos 34 países participantes de uma pesquisa da "BBC World Service" disseram que "o passo da globalização econômica" está rápido demais.


As mudanças não pressagiam uma era de completo protecionismo. Os 15 países que compartilham o euro desde 1999 vão continuar a fazê-lo, apesar de algumas queixas ocasionais. Os governos continuam obedecendo às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), mesmo se têm de reformular as próprias leis para cumpri-las. Friedman, o teórico do mundo plano, diz que a reafirmação do poder do Estado pode ser um "episódio" em vez de uma tendência, e que as tecnologias continuarão dando às pessoas a possibilidade de cruzar fronteiras.
Mesmo assim, há mais e mais indícios que os governos agora estão em ascensão.
Barreiras nacionais vêm sendo levantadas até na internet, o símbolo do mundo sem fronteiras. Ela foi projetada para ficar fora do alcance dos governos, transferindo poder para indivíduos ou organizações privadas.


Agora, sob pressão da Rússia, China, Índia e Arábia Saudita, a empresa americana que distribui endereços na internet está procurando meios de os países usarem o alfabeto de sua língua-mãe. Os conhecidos .org, .com e códigos de países em endereços online serão substituídos por seus equivalentes em chinês, hindi e muitas outras línguas. Se por um lado isso pode ajudar os locais a navegarem pela web, também pode impedir o acesso a muitos sites por usuários do exterior. Isso vai pôr fim à era em que qualquer um com um teclado de letras romanas podia ver sites em qualquer lugar da Terra - tirando o "World Wide" da "World Wide Web".


"Estamos assistindo ao passo-a-passo da balcanização da internet global", diz Tim Wu, professor de Direito na Universidade Columbia, em Nova York. "Ela está se transformando numa série de redes nacionais."


O fortalecimento dos governos nacionais se expressa em diferentes formas. Para os países ricos, geralmente significa impostos mais altos e mais regulamentação. Nos 30 países mais ricos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a receita de impostos como porcentual da economia local era maior em 2005, o último ano pesquisado, do que dez anos antes. Isso por causa do aumento nos custos de saúde e previdência social para os governos.
Nos EUA, a inclemência e abrangência da atual crise financeira corroeu a liberdade dos mercados de operarem com menos controle governamental. A questão agora não é se a regulamentação vai aumentar, e sim quanto. Os três candidatos a presidente dizem que vão criar regulamentações mais duras para o mercado financeiro e também vão incentivar programas governamentais para retreinar trabalhadores prejudicados pela globalização.


Tanto em países ricos como pobres, a imigração virou uma forte questão política, já que melhores condições de transporte têm facilitado a movimentação das pessoas pelas fronteiras para competirem por emprego com os locais. Há reações contra mianmarenses na Índia, contra haitianos em todo o Caribe, bolivianos na Argentina e zimbabuanos na África do Sul. Em 44 dos 47 países pesquisados pela organização americana de estudos Pew Research Center no ano passado, a maioria apoiava mais restrições à imigração.


Enquanto isso, nos países mais pobres da África e da Ásia, o encarecimento mundial dos alimentos leva os governos a impor novas barreiras à importação. "Não há lugar no mundo que produza a comida que precisamos se formos forçados a importar", diz o ministro indiano da Fazenda, Palaniappan Chidambaram. "Por isso, temos de ser quase auto-suficientes em todos os alimentos."


Capitais que antes tinham pouca influência no cenário mundial agora têm muita. A influência do Brasil, por exemplo, aumentou em paralelo a sua economia. Uma semana antes do colapso das negociações na Organização Internacional do Comércio, em julho de 2006, a representante dos EUA, Susan Schwab, tomou um jato para o Brasil a fim de conversar com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que também trata das questões comerciais.
Amorim tornou-se uma poderosa influência política nas tentativas de fechar acordos, que começaram em 2001. As discussões, de um modo geral, envolvem o seguinte acordo: os EUA e a Europa cortariam seus subsídios agrícolas se os países em desenvolvimento baixassem suas tarifas para produtos industrializados e abrissem mais o acesso de financeiras estrangeiras aos seus mercados.


No passado, nações em desenvolvimento praticamente só ratificavam acordos comerciais internacionais negociados pelos EUA e pela Europa. Mas o Brasil, a Índia e a China não seguem mais esse roteiro. Amorim reuniu um grupo de 20 países em desenvolvimento que querem limitar a abertura de seus mercados e pressionam pela liberalização fora de casa. A aprovação deles é fundamental para se fechar um acordo. Até agora, eles não a deram.
"O Brasil tem a chave para que isso seja feito", diz Schwab.


Cidadãos de países pobres vibram com o novo poder dos seus governos. No Rio de Janeiro, Maria Aparecida Lemos, paciente de aids que perdeu a visão, diz que comemorou "como se fosse uma festa" quando, no ano passado, o presidente Lula quebrou a patente de um remédio para aids da Merck & Co., conhecida no país como MSD. O país agora importa o genérico do Efavirenz de laboratórios indianos, por uma fração do preço que a Merck cobrava. Pelas regras internacionais de comércio, países em desenvolvimento têm o direito de invalidar patentes em casos de emergência, mas poucos já fizeram isso, por medo de retaliação.


A Merck argumenta que já havia reduzido o preço do Efavirenz e pretendia baixá-lo mais, mas não o suficiente para satisfazer Brasília. "O Brasil pode não ser o tipo de lugar que você queira investir", diz Jeffrey Sturchio, vice-presidente de responsabilidade corporativa da Merck. Autoridades brasileiras não dão importância a ameaças como essa, acreditando que o crescente enriquecimento do país o torna atraente para investimentos.


Empresas petrolíferas estão entre as primeiras a sentir o novo nacionalismo. Desde que o preço do petróleo começou a disparar em 2004, Rússia, Venezuela, Bolívia e Equador vêm nacionalizando ativos petrolíferos de propriedade estrangeira, na primeira grande onda de nacionalização desde os anos 70. Depois que a empresa estatal venezuelana de petróleo dobrou sua participação nos projetos de petróleo pesado ao longo do Rio Orinoco, no ano passado, a ConocoPhillips se afastou e teve uma despesa extraordinária de US$ 4,5 bilhões. A Exxon Mobil. também saiu e está processando a Venezuela para receber uma compensação.


A alta do nacionalismo petrolífero fez a Royal Dutch Shell mudar os cenários mundiais que seus economistas formularam para ajudá-la a traçar seus próximos movimentos. Nos anos 90, os cenários da Shell presumiam que o poder dos governos estava diminuindo. A empresa investiu pesado nos campos de petróleo de Sakalina, na Rússia, achando que enfrentaria interferência mínima. Mas com o Kremlin avançando na área de petróleo, a Shell foi forçada a vender metade da sua participação no projeto para a estatal russa Gazprom.


Nos modelos desta década, os governos têm papel mais central. Um dos dois atuais cenários da Shell considera que o domínio do governo sobre os recursos - cerca de 80% das reservas mundiais de petróleo são controlados por empresas estatais - vai continuar. No outro modelo, os governos permanecem no centro das decisões, mas reconhecem um interesse comum, diz Jeremy Bentham, diretor de questões internacionais ambientais da Shell.


Por reconhecer o poderoso papel das petrolíferas estatais, a Shell está investindo bastante em fontes não-convencionais de petróleo, muitas delas com bem poucas chances de desapropriação. Há pouco tempo ela anunciou um plano de expansão de US$ 10 bilhões para exploração das areias betuminosas do Canadá. Também ampliou seu foco sobre biocombustíveis feitos de, entre outras coisas, algas e pedaços de madeira.


A Pitney Bowes., fabricante americana de máquinas de postagem, também tenta se adaptar. Nos últimos anos, transferiu boa parte de sua produção para a China e terceirizou suas operações internas de informática para a Índia.
Recentemente, porém, a empresa começou a temer pela segurança das suas linhas de suprimento. "Estamos sempre com receio de que os nacionalistas cheguem e assumam o controle" do fornecimento na China, diz Cynthia Schmitt, diretora de administração de risco empresarial da companhia.


Por isso, nos últimos três anos, a Pitney Bowes e seus fornecedores no exterior começaram a estocar mais componentes para as máquinas de postagem. A empresa americana também passou a insistir que seus vendedores indianos tenham servidores de becape em outros países. Há tantas empresas americanas atuando em Bangalore e outras cidades da Índia que Schmitt teme que elas virem alvo de terroristas.


Outras grandes empresas têm preocupações semelhantes. Em março, a AMR Research., firma de consultoria de Boston, fez uma pesquisa com administradores de redes de fornecimento de grandes firmas americanas a respeito de como eles classificam os riscos que enfrentam ao negociar internacionalmente. Cerca de 30% deles apontaram problemas geopolíticos e desastres naturais como o maior risco.


Algumas empresas estão procurando paraísos mais perto de casa. Com empresas americanas realocando operações que tinham em áreas de baixo custo na Ásia, o México - que tem acordo de livre comércio com os EUA - registrou aumento de 21% nos investimentos estrangeiros no ano passado, para US$ 23,2 bilhões.


Alguns dos maiores novos investidores do mundo são fundos de investimentos administrados por governos. No Oriente Médio e na Rússia, fundos soberanos são fortalecidos por receita vinda do petróleo; na Ásia, eles são alimentados por lucros com outras exportações. Juntos, esses fundos têm US$ 3 trilhões em receita e têm usado esse dinheiro para adquirir participações no Citigroup., na Merrill Lynch e outras empresas estremecidas de Wall Street. As infusões de recursos foram saudadas pelo Tesouro americano e por empresas carentes de capital, mas também levantaram suspeitas, dentro e fora dos EUA, de que os investidores podem ter objetivos políticos.


Agora, muitos governos nacionais estão levantando barreiras contra tais investimentos. EUA, Canadá, Alemanha, França, Japão, Coréia do Sul, Austrália, Hungria e Grécia estão propondo ou decretando restrições a investimento de empresas estatais de outros países, segundo estudo do Conselho de Relações Exteriores. A China e a Rússia, que têm fundos soberanos, estão definindo "setores estratégicos" onde o investimento estrangeiro deve ser restrito, dizem os autores do estudo, o especialista em leis de investimento David Marchik e Matthew Slaughter, professor de economia internacional na Universidade Dartmouth.


As demonstrações de poder de governos nacionais também complicaram mais o tratamento de questões ambientais. Com governos nacionais cautelosos em firmar compromissos, negociadores e grupos de análises americanos e europeus lutam para convencer Estados a tomar medidas fortes para cortar emissões de gases do efeito estufa. Uma possibilidade: encorajar os governos a adotar ações específicas para cortar emissões agora, e esperar para assinar um tratado até que os Estados estejam mais confiantes de que seus pares estão levando o aquecimento global a sério.


Em: Bob Davis, The Wall Street Journal 29/04/2008

terça-feira, 29 de abril de 2008

sexta-feira, 25 de abril de 2008

TESOURO SUBMERSO



As descobertas da Petrobras indicam que as reservas brasileiras devem saltar de 14 para 70 bilhões de barris, colocando o Brasil entre os maiores produtores do mundo. Quem vai explorar essa riqueza?


Uma gigantesca camada rochosa de sal se estende no fundo do Oceano Atlântico do Espírito Santo até Santa Catarina. Com 800 quilômetros de comprimento por 200 de largura, ela fica a pouco menos de 300 quilômetros do litoral. Para se ir da superfície da água até o topo da camada, no fundo do mar, é preciso submergir 5 mil metros. E para se chegar à base da formação salina é necessário atravessar outros 2 mil metros. A soma de água e rochas de sal equivale a uma montanha do tamanho do Everest. Durante 130 milhões de anos, essa imensidão branca permaneceu desconhecida e intocada. Há cerca de dois anos, com acesso à tecnologia sismológica mais recente, geólogos da Petrobras conseguiram afinal enxergá-la. Usaram aparelhos que parecem uma enorme ultra-sonografia: navios-plataforma emitem ondas sísmicas cujo eco produz um retrato do fundo do mar. A imagem obtida revelou a camada de sal.


Os manuais de geologia ensinam que, sob cadeias submarinas de rochas de sal, costuma haver petróleo. Sondas especiais foram então enviadas para perfurar sete poços embaixo das rochas, na camada cujo nome técnico é pré-sal. Foi escolhida uma área conhecida como Bacia de Santos, distante 286 quilômetros da costa do Rio de Janeiro. O material, recolhido a diferentes profundidades, foi levado à análise em laboratórios da Petrobras. Em maio passado os primeiros resultados ultrapassaram as previsões mais otimistas. Eles indicavam a probabilidade de haver no pré-sal uma quantidade enorme de petróleo e de gás.


Em outubro veio a confirmação. Dois testes realizados em uma das áreas pesquisadas – o campo de Tupi – revelavam, sem margem de dúvidas, a existência de reservas de 5 a 8 bilhões de barris. Ou seja, em apenas uma das sete áreas sondadas a quantidade de petróleo encontrada equivalia à metade das reservas brasileiras atuais, estimadas então em 14,4 bilhões de barris. Testes subseqüentes aumentaram o impacto da descoberta. As amostras indicavam a existência de petróleo e de gás nas sete áreas. E mais: em todas elas, o petróleo encontrado era do mesmo tipo, o leve, de qualidade muito superior ao pesado, produzido na Bacia de Campos. O petróleo leve, por ser mais propício ao refino e à produção de gasolina, é mais rentável e caro que o pesado.


O que deixou os pesquisadores da Petrobras eufóricos não foi a qualidade do óleo dos sete poços – foi a sua uniformidade. Isso indica a existência não de campos isolados, mas de enormes reservatórios, situados numa área contínua. No caso do mar brasileiro, significa dizer que, por baixo da camada de sal, do Espírito Santo até Santa Catarina, muito provavelmente jaz um mar de petróleo.


Os cálculos da Petrobras estimaram que nessa área há reservas de cerca de 70 bilhões de barris. Se a estimativa estiver próxima dessa realidade, o Brasil pulará do 24º para o nono lugar no ranking mundial das reservas de óleo e de gás, ficando atrás apenas dos paí-ses do Oriente Médio, da Rússia, da Nigéria e da Venezuela. Com o preço do barril batendo nos 110 dólares, o Brasil teria hoje o equivalente a quase 8 trilhões de dólares – oito vezes o seu Produto Interno Bruto.


Como essas reservas podem mudar radicalmente a economia nacional, a Petrobras e o governo trataram a descoberta como segredo de Estado. Em meados de outubro, José Sérgio Gabrielli, o presidente da Petrobras, insistiu junto ao presidente da República que ele fosse ao Rio para assistir a uma apresentação sobre as pesquisas da empresa. No dia 26 daquele mês, Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou na cidade, acompanhado do ministro interino das Minas e Energia, Nelson Hubner, e do ministro de Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende. A comitiva seguiu direto para o Centro de Pesquisas da Petrobras, o Cenpes, uma construção em concreto aparente erguida na Ilha do Fundão, na Zona Norte, onde se desenvolvem todas as pesquisas da companhia. Além de Gabrielli, aguardavam o presidente os diretores da Petrobras e alguns superintendentes e gerentes da companhia.


Todos se acomodaram na sala de projeção e receberam óculos especiais para visão simulada em três dimensões. A apresentação permitiu que o presidente Lula e seus ministros tivessem uma idéia concreta da pesquisa e da quantidade de óleo existente no fundo das águas territoriais brasileiras. Terminada a exposição, Gabrielli passou a palavra para Guilherme Estrella, o diretor de exploração e produção da empresa. Ele reiterou que os testes não deixavam dúvidas quanto à existência do petróleo embaixo de toda a camada de sal, e não apenas nas áreas sondadas. Entrou a seguir no terreno político. Estrella argumentou que, como o risco de exploração era nulo, qualquer empresa que perfurasse naquela faixa encontraria petróleo excelente e em grande quantidade. Seria um crime de lesa-pátria deixar que outras empresas, que não a Petrobras, explorassem o petróleo na área, teria dito Estrella, segundo me contou um dos participantes da reunião.


A discussão levantada por Guilherme Estrella não era teórica. A Agência Nacional do Petróleo, ANP, havia marcado (antes da descoberta) a nona rodada de licitação de zonas petrolíferas para dali a um mês, no dia 27 de novembro. A rodada estabelecia o leilão de 312 áreas (“blocos”, no linguajar da licitação) em terra e no mar. Dessas, 41 estavam bem na área sob a camada de sal, nas imediações do campo de Tupi. Estrella sustentou que a manutenção da nona rodada equivaleria a “entregar um bilhete premiado aos nossos concorrentes”. Com base nesse argumento, a direção da companhia pediu a Lula que cancelasse o leilão.


Todas as empresas de petróleo instaladas no Brasil – incluindo aí as maiores do mundo, como a anglo-holandesa Shell, as americanas Exxon, Chevron, e Devon, a norueguesa Statoil e a espanhola Repsol – tinham grandes expectativas com a nona rodada. Isso por que, pelas regras da Agência Nacional do Petróleo, aquelas que se candidataram às licitações puderam comprar um pacote de dados sobre os blocos em leilão. Os pacotes, que custaram entre 1 e 2 milhões de dólares, continham algumas informações sobre a camada de sal – embora não tivessem o resultado dos testes feitos pela Petrobras. Os geólogos das demais petroleiras, no entanto, fizeram a dedução elementar: a de que, embaixo do sal, poderia haver óleo.


Tanto Lula quanto os diretores da Petrobras estavam cientes de que o cancelamento da rodada repercutiria mal no setor e, fatalmente, levantaria suspeitas quanto à disposição do governo petista em manter a quebra do monopólio do petróleo, aprovada há dez anos pelo Congresso.


Um último argumento, também apresentado por Estrella, ajudou o presidente a tomar a sua decisão. Esbanjando irritação, ele revelou que, no mês anterior, o empresário Eike Batista contratara para a sua recém-criada empresa de petróleo, a OGX, duas figuras-chave na descoberta do lençol do pré-sal: o geólogo Paulo Mendonça, gerente executivo do departamento de exploração e produção da Petrobras, e Luís Reis, seu gerente de contratos. E a OGX, liderada por Francisco Gros, que foi presidente da Petrobras no governo de Fernando Henrique Cardoso, vinha dando mostras de que estava disposta a fazer lances bem altos na nona rodada.


“O Paulo Mendonça e o Luís Reis tinham mais informações do que todos os diretores da Petrobras”, confirmou-me no mês passado um ex-diretor da empresa. “Eles sabiam não só das áreas onde havia mais petróleo, mas também dos preços que a Petrobras poderia oferecer por cada bloco, caso fossem a leilão.” No encontro na Ilha do Fundão, por diversas vezes Estrella se referiu a Mendonça e a Reis como “traidores”, o que parece ter sensibilizado o presidente. Segundo um dos presentes na reunião, Lula selou a sua decisão com uma frase: “Vamos cancelar a nona rodada. Foda-se o mercado.”


Quatro dias depois, em 30 de outubro, o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, Haroldo Lima, recebeu um telefonema da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Lima é um baiano bem-humorado, de cabelos grisalhos e olhos claros que há 35 anos é dirigente do Partido Comunista do Brasil, o PCdoB. Ele começou a fazer política ainda no curso de Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Bahia, passou para a clandestinidade em 1967, foi preso em 1976 e solto quase três anos depois, com a promulgação da lei da anistia.


Em março, na sua imensa sala da direção-geral da ANP, no centro do Rio, Haroldo Lima rememorou o telefonema da ministra. “A Dilma me ligou e eu perguntei onde ela estava”, contou. “Ela disse que estava no hospital, toda espetada de agulhas. Nós rimos e eu chamei sua atenção por ela estar trabalhando daquele jeito.” A ministra, que convalescia de uma crise de diverticulite, lhe disse que Lula ligara pouco antes de Zurique – onde fora participar da reunião da Fifa que escolheria o Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014 – e determinara que ela convocasse uma reunião extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE.


A reunião foi marcada para o dia 8 de novembro, na sede da Petrobras, no centro do Rio. Na manhã daquele dia, os treze integrantes do CNPE, entre eles o ministro da Fazenda, Guido Mantega, do Planejamento, Paulo Bernardo, e Dilma Rousseff, além de Lula, se reuniram no 18º andar do prédio. Foi feita uma apresentação semelhante à da Ilha do Fundão, inclusive com os óculos em 3D. “Foi uma comoção”, contou Haroldo Lima. “Ficamos todos muito impressionados com as descobertas.”


Os conselheiros foram então encaminhados para uma sala no 24º andar. Lá, o presidente Lula foi direto ao assunto: “Tudo o que vocês viram é para o Brasil uma notícia muitíssimo importante e positiva.” E em seguida enfatizou: “Não passarei à história como o presidente que tomou conhecimento de uma notícia dessa natureza e deixou tudo prosseguir como se nada tivesse acontecido.” Lula repetiu os argumentos da direção da Petrobras, de que a licitação dos blocos exploratórios se justificava apenas quando envolvia capital de risco, mas, naquele caso, o risco era quase inexistente. E ele então concluiu que, do ponto de vista do interesse nacional, seria recomendável cancelar a licitação. “Todos os conselheiros concordaram com a proposta”, contou Haroldo Lima. Quando chegou a vez de o próprio Lima falar, o diretor-geral da ANP destoou. Ele lembrou que outros 271 blocos, em terra e em mar, também constavam da nona rodada, e argumentou que, para muitas empresas e municípios de pequeno porte, a exploração dessas áreas era fundamental. Boa parte desses blocos ficava em regiões pobres do Nordeste e, para elas, a exploração do petróleo significaria um grande reforço de caixa, por conta do pagamento dos royalties. Lima sugeriu então que, em vez de se cancelar o leilão inteiro, se retirasse da nona rodada apenas os 41 blocos sob o sal.


Lula se entusiasmou com a proposta porque, dessa forma, o desgaste do governo diante das empresas e dos investidores seria menor. “Nada como a experiência de um velho comunista”, brincou Lula com o diretor-geral da ANP. Na hora do almoço, ele chamou Lima para a sua mesa e perguntou, preocupado: “Ô Haroldo, você tem certeza que dá para tirar só os blocos sob o sal?” Lima conta, rindo, que, naquele momento, sentiu um certo pavor. “Eu tinha quase certeza que podia, mas quando o presidente da República te faz uma pergunta dessas à queima-roupa, a certeza vai para o espaço.” Ele pegou o celular e ligou para o procurador da ANP, Gustavo Takahashi, para se certificar. O procurador também não tinha certeza, e lhe pediu um tempo. “Takahashi, você não está entendendo, eu preciso dessa informação agora”, disse-lhe Lima. “Me liga assim que você tiver alguma posição”, pediu Lima quase desesperado. “O tempo ia passando e nada dele me ligar. Mas, antes do fim do almoço, ele confirmou a legalidade da operação.”


Coube à ministra Dilma comunicar à imprensa, depois do almoço, a exclusão dos 41 blocos da licitação. Ela justificou a decisão com a descoberta de “uma nova província petrolífera na área, de uma riqueza de proporções significativas”. Logo após a ministra falar, Sérgio Gabrielli e Guilherme Estrella disseram que as estimativas das reservas existentes no campo de Tupi iam de 5 a 8 bilhões de barris. No final daquela tarde, numa teleconferência com representantes de instituições financeiras, a direção da Petrobras finalmente disse que toda a área embaixo do sal, pertencente à União, tinha reservas estimadas em 70 bilhões de barris.


A decisão de se manter a nona rodada da ANP, embora com a retirada dos 41 blocos, frustrou as expectativas de dirigentes da Petrobras. Gabrielli e Estrella achavam que o anúncio das reservas bilionárias seria uma excelente oportunidade para o governo defender a volta do monopólio da Petrobras na exploração e produção do petróleo. A posição inicial do presidente Lula, durante a reunião no Fundão, enchera os dois de esperança. Mas a decisão final do CNPE revelou que tanto o presidente como Dilma Rousseff preferiam ganhar tempo.


Desde a mudança da lei do petróleo, em 1998, a produção no Brasil saltou de 300 mil barris ao dia para 1,9 milhão, quase tudo produzido pela Petrobras. Nesse período, mais de setenta empresas nacionais e estrangeiras também passaram a explorar o petróleo em território nacional, pagando royalties e participações especiais aos cofres de União, estados e municípios. O estado do Rio, que em 1995 recebia como royalties, pela exploração da Bacia de Campos, 40 milhões de reais, arrecada hoje 6 bilhões de reais por ano. Entre 1998 e 2006, o total dos repasses para dez estados e 823 municípios saltou de menos de 1 bilhão para 68 bilhões de reais.


Apesar dos royalties, nenhum dos municípios teve mudanças expressivas no panorama econômico. Nem é garantido que, com a extração das reservas bilionárias, o Brasil também fique bilionário. A exploração de petróleo não significa nem riqueza econômica nem democracia política. No caso da África, o petróleo tem sido, historicamente, mais fonte de miséria e conflito do que de progresso. A Nigéria é o país mais populoso do continente e o sexto maior produtor de óleo no mundo. Mais de 250 bilhões de dólares em óleo já foram extraídos da água e do solo nigerianos nas últimas quatro décadas. Mas o país permanece mergulhado num fosso de pobreza e de bilhões de dólares em dívida. Além disso, a região de onde se origina 100% da produção nigeriana, o Delta do Níger, é uma das mais miseráveis do país, sem sequer serviços de saneamento básico. A poluição provocada pela extração do petróleo provocou doenças e arruinou as únicas fontes reais de recursos dos moradores: a agricultura e a pesca.


Em Angola, a situação é semelhante. Ali, o Estado faz contratos de partilha com as multinacionais petrolíferas. Em troca da exploração, elas ficam com uma parte do produto extraído, e o governo com outra. A parcela estatal, contudo, não costuma ter como destino os cofres públicos. A maior parte do dinheiro escorre pelos ralos da corrupção, enriquecendo apenas umas poucas famílias de governantes, que, graças às fortunas amealhadas, compram bens na Europa e se eternizam no poder.


Esse panorama se repete na maioria dos países grandes produtores de petróleo. O dinheiro obtido com a exploração das reservas vem servindo para sustentar ditaduras, clãs corruptos, grupos mafiosos e fanáticos religiosos. Nos países árabes, o petróleo é o alicerce na manutenção de regimes semifeudais. Na Arábia Saudita, a dinastia familiar dos Saud tornou-se praticamente dona do país, a partir da descoberta do petróleo na década de 30. No Irã, mulás se sustentam no poder com a força de milícias pagas com os ganhos da exportação de petróleo, que representa 70% das suas receitas. Na Rússia, desde a privatização das empresas petrolíferas, elas são disputadas por máfias que juntam políticos e bandidos. Na América Latina, o México e a Venezuela, há décadas grandes produtores, não conseguiram, apesar disso, livrar-se de índices sociais sofríveis e de crescimento econômico medíocre. Os venezuelanos, por exemplo, sofreram durante quarenta anos com a corrupção de elites governamentais enriquecidas pelo petróleo. A revo lta com a situação favoreceu o surgimento de Hugo Chávez, que usa os recursos do petróleo para desenvolver uma política populista.


Embora ainda às voltas com os problemas da pobreza e da desigualdade, o Brasil está longe da instabilidade política e social reinante na maioria dos países petrolíferos. Além disso, o Brasil tem uma extensa pauta de exportação, que vai desde minério de ferro a produtos agropecuários e a manufaturados, o que em geral não acontece com os grandes produtores, cuja economia depende quase que exclusivamente da venda do petróleo. “O Brasil é o único país com democracia plena, regras estáveis e estabilidade social a possuir reservas acima de 70 bilhões”, avaliou Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-estrutura, uma consultoria especializada em energia. “Isto cria um novo paradigma para a indústria petroleira mundial.”


Há dez anos, alguns críticos da quebra do monopólio estatal do petróleo diziam que o Brasil correria o risco de seguir os mesmos rumos dos países africanos, tornando-se apenas um fornecedor de óleo para as grandes multinacionais. “Naquele tempo, essa crítica já era descabida”, afirmou David Zylbersztajn, dono da DZ consultoria e o primeiro diretor-geral da ANP. Ele disse que todos os cuidados foram tomados para que grande parte dos equipamentos para exploração de petróleo fosse fabricada aqui. “Além disso, o Brasil já tinha uma indústria muito forte no setor, que atendia à Petrobras.” Entre 2000 e 2006, os investimentos da indústria do petróleo somaram 58 bilhões de dólares. Segundo o diretor-geral da Organização Nacional da Indústria do Petróleo, Eloi Fernández, o Brasil possui 1 500 empresas fornecedoras de equipamentos para a indústria do petróleo. A estimativa é de que o conteúdo nacional nas plataformas, linhas de escoamento, torres de prospecção e válvulas submarinas seja de 50%. Ou seja, metade de tudo o que é produzido para o setor vem sendo fabricada aqui mesmo. “Esse é um excelente momento para a indústria nacional. Com o barril a 110 dólares, a demanda por equipamentos e serviços está superaquecida em todo o mundo”, afirmou Fernández.


Em março, as 36 empresas de petróleo – das quais 21 brasileiras – que arremataram blocos na nona rodada estiveram na ANP para assinar os contratos de concessão. Os investimentos dessas companhias, apenas na fase exploratória, somam 1,3 bilhão de reais. Entre as empresas privadas, a OGX de Eike Batista foi a que arrematou o maior número de blocos – 21, apenas seis a menos do que a Petrobras –, pagando bônus de mais de 1 bilhão de dólares. O presidente da OGX, Francisco Gros, admitiu recentemente que a empresa estava preparada para entrar pesado na compra dos blocos na área sob a camada de sal, que foram retirados dias antes da licitação. “Nós iríamos até o limite de nossas possibilidades”, disse-me ele.


Essas posições da OGX, e sobretudo a contratação dos dois funcionários da Petrobras, fizeram com que a companhia de Eike Batista fosse vista pela Petrobras como a sua principal adversária. “Esse ataque da Petrobras à OGX não faz o menor sentido”, reagiu Gros. “A estatal precisa entender que ela agora tem concorrentes, que não é mais uma empresa monopolista. Esses movimentos de contratação de funcionários são normais no mercado. Quem paga mais, leva.”


Gros não se conforma com a posição que a estatal vem assumindo em relação à exploração na área do pré-sal. Sua avaliação é de que, ainda que o risco seja pequeno, qualquer empresa que se disponha a explorar ali terá que fazer investimentos gigantescos, até que os campos entrem em produção. “Estamos falando de prospecção de petróleo a 7 mil metros de profundidade”, disse ele. “Isso exigirá enormes gastos tecnológicos que só trarão benefícios.”


Ernani Torres, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES, espalhou sobre a sua mesa, na sede da instituição, no Rio, uma pilha de gráficos para ilustrar um fenômeno. Os financiamentos tomados pelas empresas junto ao banco indicam que a economia brasileira iniciou, no ano passado, o maior ciclo de investimentos das últimas três décadas. Entre 2008 e 2011, os investimentos totais contratados somam 1,2 trilhão de reais. Só na indústria do petróleo e do gás, serão investidos 202 bilhões de reais, sendo a Petrobras responsável por 75% disso. “O BNDES é o único financiador de longo prazo; por isso temos condições de avaliar com precisão os planos de investimentos das empresas”, disse ele. “Sabemos que estamos diante de uma brutal onda de investimentos no Brasil.”


A avaliação do BNDES é de que os investimentos em petróleo tendem a crescer de forma cada vez mais acelerada. A demanda mundial pelo combustível ainda é grande, apesar de os preços terem atingido patamares estratosféricos. Mesmo dando sinais de recessão, os Estados Unidos consomem 22 milhões de barris de petróleo ao dia, mais de dez vezes o que é consumido pelo Brasil. Depois dos americanos, são os chineses que mais utilizam o combustível: 10 milhões de barris ao dia. Não há ainda sinais no horizonte de que essa demanda irá arrefecer.


Desde que o governo tornou públicas as descobertas, em novembro do ano passado, novos testes foram conduzidos por laboratórios independentes, como o HRT, do Rio. Todos eles confirmaram a possibilidade da existência dos níveis de reservas estimados pela Petrobras. Uma outra avaliação, feita pelo banco Credit Suisse, em janeiro, apontou para reservas superiores a 50 bilhões de barris. O Brasil, que há apenas um ano se dava por satisfeito por ter alcançado a auto-suficiência na produção de petróleo, extraindo 1,9 milhão de barris ao dia, vê-se agora diante da possibilidade de, até 2015, estar produzindo 5 milhões de barris de petróleo diariamente. Essa mudança no patamar das reservas brasileiras teve tanto impacto que o Departamento de Energia dos Estados Unidos avaliou oficialmente que o Brasil se tornara uma nova fronteira do petróleo.


Essas descobertas chegam num momento em que alguns países dão sinal de enfraquecimento da sua produção. É o caso do México, que reduziu os seus investimentos em exploração e vem prospectando bem menos nos últimos cinco anos. Sem novas descobertas, as suas reservas, que já foram de 50 bilhões de barris, hoje são de 15,3 bilhões. A queda dos investimentos mexicanos se deve ao seu modelo de exploração do óleo, feito por meio de contratos de serviço. Nesse sistema, o país contrata companhias privadas para explorar o petróleo e as remunera por isso. As empresas não têm direito a nenhuma parcela do óleo, que é todo administrado pela Pemex, a estatal do setor. Para as petroleiras, o modelo foi se tornando desinteressante, em função de não lhes permitir acumular reservas. Um dos parâmetros usados para avaliar o desempenho das companhias é a comparação da produção com a sua capacidade de acumular reservas. Se a companhia produz em grande quantidade, mas, ao mesmo tempo, não repõe o que foi explorado, ela perde valor.


A produção da Inglaterra e da Noruega no mar do Norte – que teve grande expansão nos anos 70 e 80 – também entrou em declínio no começo da década. Os altos custos de produção em áreas cada vez menos acessíveis desestimularam a prospecção.


Ainda que o preço do barril seja um evidente incentivo a novos investimentos, as gigantes multinacionais do setor não têm se esforçado muito na busca do petróleo. Um estudo feito pela Rice University, dos Estados Unidos, revelou que os investimentos das cinco maiores petroleiras do mundo – BP, Chevron, ConocoPhillips, ExxonMobil e Shell – caíram de quase 10 bilhões de dólares, em 1997, para pouco mais de 6 bilhões de dólares, em 2005, apesar de todas estarem engordando o seu caixa, em função da alta nos preços. No ano passado, em vez de prospectar, as cinco grandes usaram 56% do seu caixa para pagar dividendos aos acionistas.


O resultado é que a produção delas caiu de 10,2 milhões de barris ao dia em 1996, para 9,4 milhões de barris ao dia em 2005. Isso estaria ocorrendo porque haveria cada vez menos óleo para ser descoberto no mundo. Na própria Arábia Saudita, recentes estudos revelam o esgotamento de muitos poços. As gigantes petroleiras, porém, usam como justificativa para a queda da produção a dificuldade que vêm encontrando para explorar petróleo em muitos países. As maiores reservas estão nas mãos das empresas estatais de governos que dificultam a sua entrada no jogo. A Venezuela, por exemplo, tomou 50% dos campos explorados pelas grandes companhias, e acabou expulsando a Exxon de lá.


O que se discute na Petrobras e no governo é a oportunidade de mudar a forma de concessão da exploração no Brasil, já que não existiria o risco exploratório. Pelas regras atuais, toda empresa, interessada em prospectar e produzir petróleo (inclusive a Petrobras), tem que participar de uma licitação dos blocos exploratórios, e assinar contratos de concessão. Esse modelo é utilizado na metade da produção mundial de petróleo. Por ele, a concessionária paga ao Estado um bônus pela aquisição do bloco de exploração, e fica com o risco de encontrar ou não petróleo na área. Caso ela tenha sorte, a empresa paga ao Estado royalties e participações especiais pela sua produção.


Na direção da Petrobras, defende-se que o modelo ideal para o Brasil seria o de contratos de partilha de produção – o mesmo utilizado em Angola. Para que um contrato de partilha seja adotado, é necessária, porém, a existência de uma empresa 100% estatal, sem ações no mercado, já que ela ficaria responsável por todo o petróleo do país. No caso da Petrobras, a aplicação do modelo exigiria que a empresa fechasse o seu capital. Hoje, 63% das ações da companhia estão nas mãos de investidores privados. Caso o fechamento de capital não ocorresse, o governo estaria garantindo um mercado gigantesco apenas para uma companhia, privilegiando unicamente os seus acionistas.


Os defensores do modelo de partilha argumentam que, com um controle maior do Estado, as reservas não correriam o risco de se esgotar precocemente. Levando-se em consideração o histórico da exploração do petróleo no Brasil, no entanto, o risco de esgotamento de nossos recursos petrolíferos parece muito distante. Desde 1933 – quando foi perfurado o primeiro poço de petróleo, em Lobato, na Bahia – até hoje, apenas 23 mil poços foram perfurados. Todos os campos em exploração e produção no Brasil representam apenas 5% das bacias sedimentares. Os Estados Unidos e o Canadá abrem 22 mil poços por ano. Juntos, os dois países, de território comparável ao do Brasil, têm 4,5 milhões de poços perfurados. Só no Texas, há 1 milhão de poços abertos. “Com o petróleo nesses preços, era o momento de se acelerar os leilões da ANP, e não de se discutir se se deve ou não interrompê-los”, afirma o geólogo Giuseppe Bacoccoli, pesquisador da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Reservas embaixo do solo não geram riqueza.”


Quanto tempo o Brasil pode ainda esperar para decidir como explorar as suas novas reservas? Se a idéia de mudar a lei do petróleo e garantir a volta do monopólio vingar, pode-se colocar aí no mínimo uns oito anos. “Imagine toda a lei sendo votada novamente no Congresso, sob fortes pressões políticas”, disse David Zylbersztajn. É preciso também levar em consideração os interesses dos estados e de centenas de municípios que não se conformarão em perder as suas receitas. “Isso é briga para muitos anos”, afirmou ele. “O risco é de, nesse período, o preço do petróleo cair, e o Brasil ficar com essas reservas micadas.”


Uma reserva só vale sob quatro condições. Em primeiro lugar, a de saber onde está o óleo. Em segundo, quanto há de óleo. Em terceiro, se existe tecnologia para extraí-lo. Em quarto, se a tecnologia torna a exploração economicamente viável. Sem um desses quatro fatores, o risco é de as reservas permanecerem para sempre embaixo do solo ou no fundo do mar. No caso do pré-sal, todas as quatro condições, em tese, estariam presentes. A estimativa da Petrobras é de que os avanços tecnológicos tornem mais baratas a exploração e a produção de um óleo que se sabe onde está, e cuja quantidade e qualidade são garantidas. Guilherme Estrella revelou, numa conferência, que a sondagem do primeiro dos sete campos pesquisados na área do pré-sal custou à Petrobras 240 milhões de dólares. Já a pesquisa no último deles caiu para 50 milhões. A estimativa da empresa é de que a produção na área do pré-sal permaneceria economicamente viável, ainda que o preço do barril caísse a 35 dólares.


Na manhã de terça-feira, 18 de março, a direção do Instituto Brasileiro de Executivos do Mercado Financeiro reuniu, em um seminário no Rio de Janeiro, especialistas e executivos da área de petróleo. A idéia era explicar as oportunidades para o setor em função das novas descobertas. Ficou claro que a maior preocupação de todos é saber o que o governo fará em relação à lei do petróleo. No painel de abertura do encontro, estava prevista a presença de Haroldo Lima, mas ele foi substituído, em cima da hora, por um outro diretor da ANP, Nelson Narciso, que explicou que Lima fora chamado com urgência a Brasília. A informação suscitou um comentário na platéia: “Quando o Haroldo Lima vai a Brasília é sinal de que teremos problemas.” Os representantes das empresas privadas se perguntavam o que restaria para elas, caso o governo resolva mesmo voltar ao regime de monopólio. O presidente da Petrobras ajudou a elevar ainda mais o nível de tensão: ao encerrar o seminário, Gabrielli defendeu o modelo de produção compartilhada.


Dois dias depois, Haroldo Lima, já em seu gabinete no Rio, disse que mudar a lei seria um tremendo retrocesso, pois o impacto em toda a indústria petrolífera seria negativo: “Todos sofreriam, desde as petroleiras até os fabricantes e os trabalhadores.” Como foi deputado durante onze anos, Lima disse saber exatamente o que significa levar uma lei como essa no Congresso: “Sejamos realistas. Vai parar tudo. Levaremos anos até termos uma nova lei. Até lá essas reservas ficariam inexploradas?”


Existe, segundo ele, uma medida mais simples e eficaz, que poderia reverter em bilhões de dólares para os cofres públicos. Seria a edição de um decreto-lei aumentando o percentual das participações especiais, que incidem sobre a receita de cada poço. Quando a lei do petróleo foi regulamentada, o preço do barril estava na casa dos 17 dólares. Hoje, a 110, a lucratividade de todos os poços se multiplicou. Há dez anos, poços que produziam até 400 mil barris – o que então correspondia a uma receita de 68 milhões de reais – eram liberados do pagamento da participação especial. Agora, o ganho desses poços saltou para 400 milhões de reais, mas eles continuam isentos do pagamento do tributo. “O que faz sentido agora é aumentar a cobrança das participações especiais, principalmente nos blocos explorados na área do pré-sal”, reitera Lima. Existem situações em que os percentuais de taxação poderiam chegar a até 80% da receita poço.


Deixar o nosso óleo dormindo, inexplorado, é uma cartada que interessa só às grandes potências. Os Estados Unidos estão hoje sentados sobre os 220 bilhões de barris das reservas iraquianas – um óleo leve e de fácil extração. Caso países da Opep – que têm o poder de manter os preços altos, impondo cotas máximas de produção aos seus membros – comecem a criar problemas (principalmente a Venezuela de Hugo Chávez e o Irã de Ahmadinejad), os americanos podem simplesmente abrir as torneiras iraquianas e derrubar os preços.


O geólogo Márcio Mello é o dono do laboratório HRT, de pesquisas em petróleo. Há oito anos ele deixou o comando do Cenpes para montar a sua empresa, que hoje faz análises em campos do mundo inteiro. Instalado no seu escritório, com uma estupenda vista para o mar de Copacabana, Mello disse: “O mundo inteiro está investindo para aproveitar essa alta dos preços. Se a discussão sobre as reservas for ideologizada, nós corremos o risco de perder o melhor momento desse mercado.”


Ao Brasil, a demora na exploração pode ter o significado da perda do que talvez seja o último sopro da civilização do petróleo. Cada vez mais, o mundo estará falando em hidrogênio líquido, em biocombustível e em combustíveis alternativos. A corrida do petróleo, pois, pode desacelerar. Ou, como alertou o xeque Yamani, ex-ministro do petróleo da Arábia Saudita, que entende do assunto, “a idade da pedra não acabou por falta de pedra”.
Por CONSUELO DIEGUEZ em Piauí de abril/2008

UMA MANOBRA A MUITO TEMPO ESPERADA - "BIG OIL" NO ETANOL

Ecoou no exterior a compra de metade da Tropical BioEnergia pela British Petroleum. No FT a petroleira já explica que etanol de cana "não afeta a oferta de alimentos".

Mas foi Kenneth Rapoza, da DJ, quem identificou o significado do negócio, no texto ""Big Oil" entra na indústria de etanol do Brasil". "E finalmente aconteceu", abre ele, dizendo que "a primeira" grande companhia de petróleo subiu "contra a corrente" e entrou no "mundo verde do etanol". Outras "majors", dos EUA, estariam "prospectando" aquisições em etanol no Brasil. E o avanço da BP é "um alerta" para a Petrobras se mexer no setor, registra a Dow Jones.Em outro alerta à Petrobras, a Cosan, maior empresa brasileira de etanol, comprou o serviço de distribuição da Exxon. De novo, ecoou mais no exterior, com o WSJ ressaltando em longa reportagem que foi para "melhor distribuir seu etanol".

E uma análise de Antonio Regalado no WSJ perguntou o mais importante: "Quem está ajudando a Cosan a comprar?". Arriscou, citando "o mercado", que é a mesma British Petroleum que levou 50% da Tropical BioEnergia.No contra-ataque do etanol, Roger Cohen, colunista do "New York Times", escreveu "Tragam os biocombustíveis certos". Faz uma defesa apaixonada do etanol de cana do Brasil, cuja produção poderia crescer dez vezes que não avançaria sobre a Amazônia.

Cobrando o fim da tarifa sobre o etanol, disse que o problema é o "protecionismo" de EUA e Europa, "não a idéia dos biocombustíveis".Como ainda nãos ei colocar hyperlink, segue abaixo a lista de fontes, aliás, consideráveis fontes:

quarta-feira, 23 de abril de 2008

BIOCOMBUSTÍVEIS COMO SOLUÇÃO PARA A COMPLEMENTARIEDADE DE FONTES ENERGÉTICAS


O barril de petróleo a US$ 120 não seria o suficiente para pensar em complementariedade de fontes energéticas?
E a concorrência com a produção de alimentos?
Vale a pena promover o debate com o objetivo de proporcionar a lucratividade do setor e o atendimento da demanda mundial por biocombustíveis e que possa conseqüentemente, contribuir para a inclusão social e promover o acesso a combustíveis e a renda de forma sustentável a população mundial?



OS MISTÉRIOS QUE RONDAM A ECONOMIA CHINESA

Uma das questões que vem intrigando os economistas é como a China continua crescendo mesmo com o agravamento da crise americana. No primeiro trimestre deste ano, por exemplo, o total de exportações foi 21,4% maior que no mesmo período de 2007. O mesmo aconteceu com o crescimento do PIB, que surpreendeu as expectativas com uma alta de 10,6% nos três primeiros meses de 2008.

Mas, se a crise americana ainda não foi capaz de conter a locomotiva chinesa, um problema mundial pode forçar o governo a puxar o freio de mão. A inflação interna está em disparada, puxada principalmente pela alta dos alimentos. Após bater recorde em fevereiro, chegando a 8,7% em doze meses, o índice recuou um pouco para 8,3% em março. Mesmo assim, no primeiro trimestre a média da inflação ao consumidor foi de 8%, muito acima do índice de 2,5% do mesmo período de 2007.

Com isso, o governo aumentou pela terceira vez a taxa dos compulsórios dos bancos este ano, após dez altas consecutivas em 2007. De acordo com o Departamento de Pesquisas Econômicas do Bradesco, novos apertos monetários devem ocorrer até que a inflação recue para um patamar de 5%.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A INFLUÊNCIA DA PERCEPÇÃO DE QUALIDADE NO PROCESSO DE DECISÃO DE COMPRA


Uma Pesquisa que Envolve a Avaliação e Discussão dos Impactos que Envolvem Produtos Chineses e as Nossas Decisões de Compra


O problema da pesquisa envolve o conceito de qualidade, que pode ser definido como a avaliação de um produto ou experiência frente a uma expectativa e a conceitos pré-formatados e a forma como a qualidade real e a qualidade percebida podem influenciar no processo decisório de compra.


Primeiramente, o estudo do comportamento do consumidor proporcionará a visualização de como indivíduos e organizações selecionam, adquirem, utilizam e substituem bens, serviços e experiências para satisfazer suas necessidades e desejos.


O problema central será a avaliação de como os problemas de qualidade apresentados pelos produtos chineses poderão influenciar o processo decisório de compra.


A pesquisa e estudo dessa questão são pertinentes, pois a China posiciona-se como a quarta economia mundial e o terceiro maior exportador de produtos manufaturados.


O objetivo geral é aprofundar o estudo do comportamento de compra do consumidor e as possíveis influências no processo decisório de compra ao apresentar-se uma característica de uma determinada categoria de produtos.


Um dos pontos centrais da pesquisa será entender como o conhecimento dos modelos de comportamento e os fatores externos (aprendizagem e a formatação de conceitos dos consumidores) poderão influenciar a decisão de compra e, conseqüentemente, o desempenho financeiro das organizações produtoras dos bens de consumo.


Este tema justifica-se pela crescente participação da China na produção e exportação de produtos manufaturados para o mundo e os recentes problemas relacionados à qualidade ocorridos com empresas multinacionais com bases manufatureiras na China. Esta seqüência de acontecimentos poderá influenciar o comportamento do consumidor no momento de avaliação de alternativas de compra.


Os fatores impactados pelos acontecimentos citados acima envolvem os fatores culturais e sociais que podem ser exemplificados, resumidamente, pela caracterização da compra de automóveis no Brasil que apresenta ligação direta com status, papéis e formas como o indivíduo é visto pela sociedade. A influência dos grupos de referência também são fatores decisivos nesse tipo de compra.


No estudo, será identificado e avaliado o impacto de uma percepção, por parte da sociedade, de que os produtos chineses são de baixa qualidade e são, conseqüentemente, sub-valorizados pelo mercado (auto-imagem).


Os fatores psicológicos também fazem parte do estudo, já que estão diretamente relacionados a crenças e atitudes que se relacionam com uma predisposição aprendida para se comportar de um modo coerentemente favorável ou desfavorável com relação a um dado objeto, no caso deste estudo, os produtos de origem chinesa (Schiffman e Kanuk, 2000).


Outra parte envolvida na pesquisa será a forma como os indivíduos coletam, organizam e avaliam as informações, ressaltando a influência das fontes comerciais (têm o objetivo de informar)e as fontes pessoais (desempenham a função de avaliação e legitimação). Tanto a busca interna quanto a busca externa podem ser fatores decisivos para a aquisição de produtos chineses devido a conceitos pré-formatados dos consumidores e de seus influenciadores, que foram expostos às mesmas informações relacionadas a problemas de qualidade no uso de produtos “Made in China”.


O processo de compra de um automóvel está sujeito à avaliação de alternativas, que nos automóveis envolvem relação com preço, qualidade, confiança na marca, desempenho, segurança, status, entre outros.

Esse projeto de pesquisa tem como objetivo demonstrar como a qualidade dos produtos fabricados na China pode influenciar a decisão de compra dos consumidores, sendo necessário desenvolver fundamentação teórica e apresentação prática dos efeitos da percepção da qualidade na decisão e conseqüente aquisição dos produtos.

Como ponto de partida, serão apresentadas as etapas pelas quais os consumidores estão expostos no processo decisório de compra e o estudo dos modelos formulados que buscam reunir a seqüência de fatores que explicam o processo de compra. Em segundo lugar, o estudo apresentará a importância e o impacto de cada um desses estágios na decisão de compra ao expor os consumidores a produtos que reúnam características distintas, nesse caso, de origem chinesa.


O terceiro passo será apresentar a relação existente entre comportamento de compra e a influência de fatores externos, como a formação de um conceito de baixo preço relacionado à baixa qualidade de produtos manufaturados, como os automóveis importados da China.


Posteriormente, será analisado mais detalhadamente o mercado de automóveis importados no Brasil, com especial atenção aos critérios de avaliação e os processos decisórios distintos que envolvem a aquisição de bens com alto valor de aquisição, e que apresente a necessidade de oferecer atributos específicos da classe de produtos automóveis, como segurança, confiança na marca, economia, durabilidade, desempenho, conforto, status oferecido, entre outros que são pertinentes ao processo de compra desse tipo de produto.


Após expor as etapas do processo de decisão de compra e a influência dos atributos disponibilizados por esta classe de produtos com origem na China, será estudada a influência dos fatores relacionados ao conceito de qualidade dos fabricantes chineses e apresentadas às conclusões fundamentadas nos estudos de caso e nas pesquisas científicas com o objetivo da resolução do problema da pesquisa.